quarta-feira, novembro 04, 2009

Rosa e Antônio

Os ingredientes espalhados sobre a mesa observavam Dona Rosa, apreensivos, esperando sua vez de entrar na panela. Como é que depois de tantos anos fazendo doces, no aniversário do marido, ela não era capaz de se lembrar a quantidade de leite? Tinha que olhar a receita, mas ora veja, também havia se esquecido onde a guardara! Revirou todas as gavetas e acabou por achar o caderninho de receitas surrado entre os recibos das contas pagas no ano passado. Seria bom separar um pratinho de doce para a vizinha... tão prestimosa a Dona Rita! Sempre se oferecia para acompanhá-la até o banco. Mas o que era mesmo que queria ver? Ah sim, a quantidade de leite... Nossa.... que letrinha mais miúda... onde estavam os óculos? Foi direto ao balcão da cozinha: não estavam lá. Tateou por sobre os móveis da sala, e necas de pitibiriba, só o pó clamando por limpeza. Voltou ao quarto, abriu outras gavetas: os óculos nem davam sinal de vida. Ai, ai, valha-me Santo Antônio, onde eu coloquei minhas lentes? Ai, Santinho não vais me fazer ajoelhar e procurar debaixo da cama, bem sabes que se me abaixo a coluna resmunga por dias! Suspirou cansada e sentando-se na beira da cama, pegou o retrato do falecido marido de sobre o criado mudo. Filhinho, que andas aprontando lá pra São Pedro que hoje não estou conseguindo aprontar teu doce? Calou por um instante os pensamentos e olhou saudosa para o marido que lhe sorria na fotografia. Foi então que percebeu, no reflexo do vidro, que seus óculos estavam enfiados no cabelo, preso em coque no alto da cabeça. Riu de si mesma misturando o embaraço à satisfação. Santo Antônio nunca falha!